quinta-feira, 26 de maio de 2016

O triunfo do golpe e indignação seletiva



Semana conturbada. Manifestantes massacrados em frente à casa do presidente interino, gravações escandalosas que mostram como, verdadeiramente, foi arquitetado um golpe de Estado para que políticos sujos possam livrar-se da justiça, ator pornô dando conselhos para educação nacional e o silêncio da mídia diante de toda essa sujeira que assola o país na atualidade. O noticiário tenta nos encher de esperanças com um Brasil melhor quando na verdade tudo está pior. Estamos em uma crise ética extremamente profunda e o novo governo parece profundamente intencionado em curtir com a nossa cara e rir da nossa indignação.

Enquanto o Brasil inteiro se escandalizou com a nomeação de Lula para ministro chefe da casa civil, rendendo uma edição inteira dos telejornais para tratar do assunto, ninguém bateu panelas ou acampou na Avenida Paulista para questionar os numerosos ministros citados e/ou investigados na Lava Jato nomeados pelo governo interino. Ninguém ficou chocado com as gravações divulgadas nessa semana que mostram claramente, para ninguém ficar com dúvida, que de fato foi tramado um golpe. Essa trama tinha um objetivo único, livrar políticos importantes da prisão e da investigação. O mais grave de tudo isso é que as gravações dão a entender que a única instituição (até então) confiável do país - o STF - está envolvido no esquema.

Diante de tudo o que foi divulgado, o que foi feito? NADA! Nenhum batedor de panela se manifestou, nenhum adorador da pátria foi protestar, nenhum meio de mídia importante abordou o assunto de forma profunda. Observe um simples exemplo, vivenciado por mim ao longo das últimas semanas: Na semana passada (16/05 a 25/05) a Rádio Band News FM de São Paulo utilizou praticamente o horário inteiro de seu principal programa vespertino, o Band News em Alta Frequência, para exibir uma série de entrevistas cujo o nome era "Os desafios do novo presidente". Tratavam-se de entrevistas com especialistas (em grande parte apoiadores do governo interino) que tinham o objetivo de apontar como corretas as decisões que estavam sendo tomadas. Essas entrevistas eram recheadas de críticas ao governo afastado e visavam dar esperanças aos brasileiros em um governo corrupto, de direita e neoliberal como se ele fosse a solução para todos os problemas enfrentados pelo país. Porém, nessa semana (23/05 a 26/05), o mesmo programa ficou vazio de debates políticos. No dia em que foram divulgados os áudios que incriminavam o então ministro do planejamento, não tinham especialistas sendo entrevistados, não havia cobertura especial direto de Brasília e não foi abordado o assunto dos áudios de forma efetiva. Nessa data a rádio resolveu mostrar sua falsa imparcialidade. Apenas noticiou o assunto em flashes enquanto o foco do programa foi futebol e trânsito. Vergonhoso!

Enfim, assistimos a um golpe onde dificilmente a democracia sairá vencedora. Os áudios, ao mesmo tempo que são um trunfo para aqueles que sempre denunciaram em golpe, tiram todas as nossas esperanças de reverter o quadro, visto que eles mostram que praticamente todos os setores estão envolvidos. O judiciário comprometido em criminalizar o governo afastado e acobertar os criminosos pertencentes a outros partidos. O legislativo faz vistas grossas e não veem nada demais no conteúdo do que foi divulgado e a mídia e diversos setores governistas clamando ao povo por união e compreensão com as decisões impopulares que deverão ser tomadas pelo governo interino. Aliás, por que só precisamos ter união agora? Por que ninguém clamou por união antes do governo legítimo ser afastado? Simples: não se trata de salvar o país da crise e sim de salvar a cabeça da classe política e contar com apoio popular para isso.

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