terça-feira, 24 de maio de 2016

O lucrativo mercado da doença

Protesto pela liberação da fosfoetanolamina. Avenida Paulista, 2015


Recentemente, a justiça tornou proibido o uso da fosfoetanolamina, a popular pílula do câncer, derrubando a decisão anterior, da presidência da república, que permitia seu uso em pacientes em fase terminal. Essa pílula vem sendo desenvolvida há décadas na USP e demonstrou resultados promissores em animais dando esperança aos que sonham em se ver livre do câncer. A liberação do uso do medicamento foi resultado de uma intensa luta entre as entidades médicas e as famílias das vítimas da doença, que viam na pílula uma possibilidade de cura.

O argumento para quem contesta o uso do novo medicamento gira em torno da metodologia científica. Para a comunidade médica e farmacêutica, a liberação da pílula é uma loucura e um atropela aos métodos da ciência, já que a droga ainda não havia sido testada em humanos. Para os que defendem seu uso, a falta de perspectiva de cura da doença aparece como algo válido, visto que a morte seria certa e que a pílula pudesse, milagrosamente, recuperar os doentes.

Até que ponto a metodologia científica deve ser seguida como uma doutrina religiosa? Seriam os métodos da ciência mais importantes do que o clamor humano pela vida? O que ganha a comunidade médica e farmacêutica ao lutar contra o uso de um medicamento que, em tese, o máximo que ele poderia fazer é não surtir efeito – já foi comprovado cientificamente que o uso da droga não é tóxica ao organismo humano?

A proibição de um medicamento promissor, logo após a direita ter ascendido ao poder por meio de um golpe, faz reacender uma velha crença: a indústria farmacêutica estaria sempre conspirando para que as doenças não sejam plenamente curadas garantindo assim o seu faturamento? A pesquisa farmacêutica busca propositadamente apenas paliativos e alívio dos sintomas para que seus medicamentos sejam consumidos ao longo de uma vida inteira? Pensem um pouco: se eu tiver AIDS, terei de tomar um coquetel de medicamentos para o resto de minha vida. Dessa forma, manterei a indústria farmacêutica produzindo e enriquecendo. Por outro lado, se puder curar definitivamente a doença, farei uso do medicamento poucas vezes, ou até mesmo uma vez só. Isso significa que, ao curar definitivamente qualquer doença, a indústria farmacêutica acaba por ser prejudicada, pois uma pessoa saudável não é consumidora de seus produtos. Mas seu não puder curar minha doença, terei de fazer uso contínuo dos medicamentos para prolongar minha vida ou aliviar os sintomas.


O fato que a fosfoetnolamina e um tratamento barato e que promete ser definitivo. Já a sofrida quimioterapia se mostra um tratamento caro e contínuo. É necessário pontuar qual dos dois tratamentos a comunidade médica e farmacêutica prefere? O fato do medicamento, segundo pesquisas ser livre de efeitos colaterais reforça ainda mais a ideia de que luta contra seu uso não se fundamenta na segurança do paciente e sim no temor de que o paciente deixe de consumir os medicamentos tradicionais. A guerra travada não é pela saúde e sim por um mercado imenso e lucrativo: o mercado da doença.