segunda-feira, 30 de maio de 2016

Abaixo à mordaça aos professores!

 

Vivemos uma onda conservadora. O avanço da direita nos últimos anos e o tradicionalismo que estamos presenciando ganha cada vez mais força. Na internet discursos racistas, antifeministas, homofóbicos e classistas são avidamente defendidos por uma grande quantidade de pessoas. Políticos de caráter fascista e de ideias retrógradas, como os membros da bancada evangélica por exemplo, caem no gosto de parte da população e o discurso anticomunista sem fundamento nos fazem vivenciar o macarthismo da Guerra Fria.

Em meio a essa onda conservadora, pipocam no legislativo brasileiro, em todas suas esferas (municipal, estadual e federal), projetos de lei que versam sobre a opinião do professor em sala de aula. Alguns chamam essa prática de assédio ideológico. Esses projetos partem de combatentes contra a educação progressista e libertadora. Normalmente eles partem daqueles que odeiam Paulo Freire e acreditam, erroneamente, que seu método é aplicado no Brasil e está nos transformando em um país de comunistas. Há algum tempo, inclusive, um ex-colunista de uma grande revista reacionária escreveu um artigo bem contundente conclamando os pais a fiscalizarem as aulas de Geografia e História que são ministradas aos seus filhos, no temor dos professores estarem os transformando em pequenos comunas vermelhos.

Na verdade o temor de quem propõe esses projetos, ou condena a postura crítica do professor em sala de aula, não é em relação ao comunismo. Eles temem uma educação libertária. O surgimento de uma geração consciente e atuante os assusta. Já dizia a música Geração Coca-cola, da Legião Urbana, no trecho em canta que "Vamos fazer nosso dever de casa/ Aí então vocês vão ver/ Suas crianças derrubando reis/ Fazer comédia no cinema com as  suas leis". Na era da informação a juventude passa ter capacidade de mobilização e atuação em seu meio. Acompanhamos, por exemplo, as ocupações de escolas públicas pelos estudantes por qualidade na educação. Calar os professores, limitá-los a ler o que está escrito, colocar-lhes uma mordaça e obrigá-lo a reproduzir o discurso da direita é uma forma de inibir o surgimento dessa geração, a geração que poderá transformar verdadeiramente o país.

Exigir neutralidade do professor é uma tarefa impossível. Em qualquer meio é difícil não pender para um dos lados de uma discussão. Além disso, como dizem vários sociólogos e filósofos, ao assumir a neutralidade, estamos automaticamente favorecendo o dominador. Não tem como eu tratar de História e Geografia sem criticar a desigualdade, sem enaltecer os movimentos sociais, sem defender as minorias e sem analisar o lado podre da mídia. Não é questão de ser socialista ou não, é uma questão de análise do espaço. De que vale a falsa neutralidade enquanto a televisão discursa a favor da direita? Nada! Aprendi com grandes autores da Geografia - Milton Santos, Yves Lacoste, David Harvey, Josué de Castro, entre outros - que disfarçar a disciplina de ciência contribui para a continuidade dos problemas que vivenciamos. As ciências humanas devem sim ter um caráter militante e, se não fosse para querer transformar a sociedade, não teria me tornado professor. A neutralidade é uma ilusão e devemos deixar isso bem claro aos nossos alunos. Mas faço sempre questão de destacar que minha aula reflete as minhas opiniões e experiências de vida, que não devo em momento algum ser copiado como um espelho, que minhas ideias  sejam seguidas cegamente. Sempre prezei pela análise profunda e nunca inibi meus alunos por ter opiniões contrárias às minhas, só os estimulo a construírem argumentos sólidos e plausíveis dentro daquilo que eles acreditam.

Amordaçar o professor é calar a juventude, é produzir robôs que só repetem sim. Devemos lutar contra isso pela qualidade da educação e pela real transformação social, desejo nosso desde os tempos coloniais, mas que nunca se concretizou por causa da reprodução do capitalismo, que nos consome e nos destrói há mais de quinhentos anos.

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