sexta-feira, 27 de maio de 2016

A praga da cultura do estupro



Um crime bárbaro e brutal. Trinta rapazes abusaram sexualmente de uma garota de dezesseis anos no Rio de Janeiro. Um fato que deixou os brasileiros atônitos, chocados, estupefatos com o nível em que pode chegar a imbecilidade humana. A divulgação de um vídeo, por parte de um dos agressores, durante o evento torna o fato ainda mais estúpido e mostra o ar de tranquilidade daqueles que o praticaram. Nesse momento, a sociedade clama por uma só coisa: justiça. Voltam os discursos que defendem a pena de morte, a prisão perpétua, o fim da maioridade penal, a castração química, a internação de maníacos sexuais, a premiação do policial que mata, a defesa dos que fazem justiça com as próprias mãos, a condenação imediata dos envolvidos e que os mesmos apodreçam na cadeia.

Acho muito justo esses clamores da sociedade por justiça, afinal, quem não está indignado com isso? Até mesmo a extrema direita que extinguiu o "ministério das mulheres" e propôs projetos para limitar o atendimento à vítimas de estupros manifestou sua indignação com o ato. Mas a justiça vai, no máximo, servir de paliativo, apenas aliviará a dor daqueles que veem a barbaridade do crime e não consegue suportar a selvageria em que vivemos. Mas a justiça resolverá o problema dos casos de estupros? Ninguém é idiota e sabe que esse não foi o primeiro e não será o último. Esse crime é muito recorrente no Brasil e não será a punição severa que o fará diminuir. Afinal, de que vale colocar câmeras de vigilância depois que sua casa já foi invadida? De que adianta aumentar o policiamento depois que inúmeros assaltos se repetiram em determinados bairros? Essas perguntas não querem dizer que eu não quero que se faça a justiça. É óbvio que os autores de um crime tão chocante não devem ficar impunes. Mas o acontecido deve servir para que se levante outro debate: Qual é a influência da cultura do estupro nisso tudo? 

O que me deixou tão horrorizado quanto o crime foram os comentários e opiniões que diziam "mas também, o que estava fazendo na rua a essas horas", "quem manda andar com roupas curtas?", "se é vagabunda, mereceu!". Em um momento em que vivemos um debate tão intenso pela defesa das minorias, ler e ouvir esses tipos de afirmações mostra que ainda não estamos preparados para lidar com a diversidade. O pior, têm aqueles que acham o máximo o homem se aproveitar da mulher. Classificam-o como esperto, "pegador". Infelizmente esse tipo de opinião vem de quem deveria dar o exemplo, mas, se achando o maior piadista do mundo, ensina o contrário. Observe a imagem abaixo:



É hora de discutir o quanto a educação patriarcal, que sempre subjugou as mulheres, influencia nos casos de estupro. Será que é só a impunidade que permite ao homem abusar das mulheres? Claro que não! O homem faz o que faz porque foi criado entendendo que é o dono delas, aprende-se desde criança a tratar a mulher como objeto, que a função da mulher é satisfazer e cuidar do homem, que toda a mulher tem de ser "bela, recatada e do lar", como escreveu um renomado periódico brasileiro. Ou seja, os homens estupram por acreditar, mesmo que inconscientemente, que têm esse direito.

Agora é hora do movimento feminista ganhar força! É hora, mais de que nunca, das mulheres exigirem os seus direitos e suas prioridades. É o momento daqueles que dizem, no feriado do Consciência negra, que preferem comemorar a "Consciência Humana" colocar em prática o sentimento de humanidade que diz ter. É hora que reconhecer, não só nas mulheres mas em todas as minorias, a opressão que sofrem, o massacre que as vitima, o sofrimento silencioso que são obrigadas a suportar e, quando resolvem gritar, são taxadas de histéricas, loucas, "feminazis", mal amadas e coisas do tipo. Devemos punir sim! E com muito rigor. Mas o inimigo maior não são o estupradores e sim a cultura do machismo e do estupro.
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