quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Escravos do consumo

Já nascemos destinado a ser consumidores.*

Vivemos uma vida sem sentido. Trabalhamos do início ao fim de nossa existência simplesmente para comprar e adquirir produtos, que se inovam a um ritmo alucinante sem precedentes. Invertemos nossos valores e deixamos nossa essência de lado. Passamos a valorizar o "ter" em lugar do "ser". Nosso caráter não tem a mínima importância desde que possuamos bens.

Mas como nos tornamos assim? Por que deixamos de nos preocupar com coisas importantes do nosso dia a dia, do nosso viver, para virarmos escravos de produtos? Devemos mesmo aceitar que seja normal que não possamos viver nossas vidas? Deveria ser tolerável o fato de vivermos uma vida inteira em trabalhos que muitas vezes desprezamos, abominamos e detestamos simplesmente para poder continuar obtendo os bens e produtos que nos despejam o tempo inteiro?

Nem sempre fomos assim. Esse processo de modernização que culminou com nossa sociedade atual teve início desde a Revolução Industrial, quando a economia capitalista possou a se alicerçar em comercialização de consumo pouco duráveis e descartáveis. O consumo de produtos supérfluos passou a sustentar toda uma cadeia produtiva que tem na compra e venda de produtos sua base principal e indispensável.

Façamos o seguinte raciocínio: se estamos sempre comprando, estamos mantendo a demanda para a fabricação de produtos diversos, estimulando sua produção. Nesse contexto, o consumo gera empregos que, com seus salários, ampliará ainda mais o consumo. Esse cadeia se inicia e se encerra no consumo e então tudo começa novamente. Se deixarmos de consumir, acabaremos boicotando a produção que, como consequência, acarretará em desemprego e crise econômica.

O problema é que o consumo nos torna escravos do trabalho. O desejo constante, motivado por propagandas, mídias e formação de opinião pública, nos faz labutar feito animais, de forma forçada, com o consolo de que esse sofrimento nos renderá aqueles produtos que sonhamos. Porém, poucos percebem que provavelmente esses produtos nem nos farão falta. Essa necessidade de adquirir é artificial, nos foi inserida de fora pra dentro.

O consumo, apesar de ser o sustentáculo da economia moderna e fator essencial para o crescimento econômico nos moldes do mercado atual, produz impactos diversos. Quando às consequências ambientais, não precisamos pensar muito para entender. Basta compreender que, quanto mais consumimos, mais matéria prima é extraída e mais lixo será produzido. Já estamos ficando sem espaço. No aspecto social, assim como o consumo sustenta o tráfico, nosso hábito de comprar sem parar sustenta a exploração humana. Miseráveis de várias partes do mundo (incluindo crianças) trabalham em regime de exploração extrema para garantir nossos bens de consumo a preços baixos. No aspecto ideológico o consumo nos anestesia. O prazer de adquirir algo novo nos faz esquecer a essência de nossa sociedade. Entender como ela funciona não nos interessa mais. Estamos mais preocupados em trabalhar para juntar o dinheiro necessário para providenciar aquilo que desejamos. Nos tornamos individualistas.

Por fim, no âmbito pessoal, o hábito de comprar, apesar de nos dar um prazer momentâneo, nos torna mais infelizes. Estando escravo do trabalho, não nos sobra tempo para as coisas mais importantes da vida como a diversão, o lazer, o tempo livre, a família, os filhos, os amigos... Ralamos o dia inteiro no serviço e quando chegamos em casa sentaremos a frente da TV, onde assistiremos propaganda que nos farão comprar mais. Entramos em um ciclo de trabalho, compra e dívidas que nos envolve e não nos deixa sair.

Logo, é possível compreender que não somos livres. A liberdade não existe, ela é uma mera ilusão. Não somos obrigados a trabalhar, mas o sociedade nos obriga a consumir que, consequentemente, nos obriga a se submeter a uma rotina nada prazerosa, degradante e humilhante apenas para enriquecer aqueles que nos exploram e nos manipulam para perpetuar essa condição.

*Imagem disponível em <http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/08/consumismo-desenfreado-voce-tem-prazer.html> Acesso em 17. set. 2015.

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