segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Desconstruindo a Independência do Brasil

Retratação de d. Pedro com herói da Independência do Brasil.*

Dia 7 de setembro de 1822, o dia de nossa independência. Finalmente, após 322 anos, o Brasil estava liberto do julgo de Portugal. Agora os brasileiros poderiam respirar aliviados. Poderiam! A face da nossa independência que nos é mostrada é uma face muito romântica e bela. Mas a independência não é cercada de toda essa poesia que nos é contada, principalmente no dia em que essa data é comemorada.

Os Brasil teve seus laços rompidos com Portugal já em 1808. Quando d. João , ainda príncipe regente, chega ao país com toda a sua corte para estabelecer em solo americano a sede do Império Português, é dado o primeiro passo para a nossa independência: a abertura dos portos às nações amigas. Na prática, está quebrado o antigo pacto colonial que obrigava o Brasil a ter Portugal com intermediário no comércio internacional. Ou seja, toda a entrada e saída de mercadorias no Brasil deveria passar primeiro por Portugal, encarecendo nossos produtos no mercado externo, elevando os preços dos produtos importados e enriquecendo comerciantes do reino em detrimento dos produtores brasileiros. A quebra do pacto colonial através da abertura dos portos representa a autonomia econômica para o país. O Brasil poderia agora comercializar diretamente com quem quisesse, desde que fosse de nações amigas de Portugal (que naquela época se resumia à Inglaterra).

Outro elemento iniciador da independência brasileira é retirada do Brasil do status de colônia. Outro decreto de d. João ao chegar no país é que trata da elevação do Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves. Isto é, o Brasil não é mais colônia de Portugal e sim um reino unido e sede de todo o império português. Essas primeiras linhas demonstram que a independência não surgiu de um gesto abrupto de d. Pedro como os livros do ensino fundamental sempre nos fizeram crer. Ela é resultado de um processo, que delimito aqui com a chegada da família real ao Brasil.

A independência de nosso país também não foi uma exclusividade na América. Os Estados Unidos, em conflito com os Ingleses, foram os primeiros em nosso continente, em 1776. A partir daí, diversas colônias na América Latina foram se libertando do julgo espanhol. Esses movimentos tiveram como inspiração a Revolução Americana (independência dos Estados Unidos) e a Revolução Francesa. O mundo naquele tempo proliferava os ideais de liberdade, igualda e fraternidade. As monarquias foram sendo, uma após outra, derrubadas. O sistema colonial já não era mais aceito, na América e no Mundo. Argentina, Chile, Bolívia, Venezuela, Haiti. Esses são exemplos de alguns países que iniciaram movimentos revolucionários com o objetivo de libertar-se das correntes europeias com luta, sangue e nacionalismo.

Mas, e a independência do Brasil, se encaixa nesse contexto? Não! Quando d. João (agora já coroado como d. João VI) teve de voltar com toda sua Corte para Portugal, deixou no como regente no Brasil o seu filho d. Pedro. Ele deveria governar esse lado do Império Português, reportar-se ao rei em Portugal e evitar, a qualquer custo, um movimento revolucionário semelhante aos da América Espanhola. Esse tipo de movimento ocorreu no Brasil de forma regional ainda antes de d. João chegar ao país, mas foram rapidamente sufocados como a Conjuração Mineira e a Conjuração Baiana.

Porém, as Cortes (o parlamento português), que ganhou muito apoio e poder com ausência do rei, pressionava continuamente para o retorno do príncipe a Portugal e o rebaixamento do Brasil de volta a categoria de colônia com a consequente restauração do pacto colonial. Uma elite brasileira, interessada na manutenção dos seus lucrativos negócios, começou a cercar d. Pedro pressionando-o a não obedecer as ordens vindas do reino. Claro que a elite contava, também, com a vaidade do nosso regente, que queria reinar. Estava unido o útil ao agradável.

No dia 7 de setembro de 1822, em São Paulo, às margens do Rio Ipiranga, enquanto retornava ao Rio de Janeiro de uma visita diplomática à Santos, d. Pedro recebeu uma mensagem enviada por sua então esposa, Maria Leopoldina, avisando que as Cortes enviaram um ultimato. Pedro era forçado a retornar sob as punições vindas do reino. Toda essa pressão, representada na carta de sua esposa, foi a gota d'água para d. Pedro. Num gesto simbólico ele ergue a espada, pede para sua comitiva acompanhá-lo e profere o famoso grito "independência ou morte". O Brasil já estava independente naquele momento? Não. Restava convencer os portugueses, a comunidade internacional e os brasileiros.

Iniciaram-se as negociações. Era necessário obter de Portugal o reconhecimento da independência do Brasil e os portugueses não estavam dispostos a abrir mão tão facilmente de sua mais rica colônia. A Inglaterra aparece como intermediária (mais um país independente era fundamental para os anseios industriais dos ingleses) e um acordo é costurado: Portugal aceitaria a Independência do Brasil mediante o pagamento de uma pesada indenização. Mas, de onde um país recém criado vai tirar dinheiro para pagar um altíssimo valor como esse? Estava tudo resolvido! Os ingleses em um "ato de benevolência" emprestaria esse dinheiro ao país nascente. Dessa forma o Brasil se tornaria independente de Portugal, mas dependente economicamente dos ingleses que passaram a ditar os rumos de nossa economia desde então. O reconhecimento oficial só viria em 29 de agosto de 1825, tornando o 7 de setembro de 1822 ainda mais duvidoso.

Era necessário convencer os brasileiros também. Muitas províncias não aceitaram a independência tal como foi feita. A libertação do país pelas mãos de um português, membro da família real portuguesa, não era bem vista por alguns setores da sociedade. Independências paralelas foram tentadas, principalmente nas províncias do Nordeste. Esses movimentos foram esmagados e a independência do Brasil foi imposta através da força, pelos apoiadores de d. Pedro. No final, esse evento em nada transformou o país. As antigas estruturas coloniais foram mantidas como a grande propriedade monocultora para exportação, a exploração do trabalho escravo e a miséria daqueles que eram maioria no país. Ao contrário dos Estados Unidos, não idealizado aqui uma nação antes nos tornarmos independentes.

Então o 7 de setembro não tem importância nenhuma? Tem sim! Essas datas são importante para que façamos reflexões e para que possamos sempre lembrar de nossa história, seja para acreditar cegamente que d. Pedro foi um grande herói, seja para duvidar e contestar o evento, formando uma opinião crítica sobre o fato. Esse foi o meu objetivo aqui.

*Imagem disponível em <http://blogdexucuru.blogspot.com.br/2015/09/07-de-setembro-dia-da-independencia-do.html> Acesso em 7. set. 2015.

Acompanhe o Blog no Twitter: twitter.com/henriquepcruz

Curta nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/atualidadefoco