quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Financiamento empresarial de campanhas: a raiz da corrupção

Disponível em <http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/07
/financiamento-privado-de-campanha-a-mae-de-toda-corrupcao.html>
Acesso em 27, ago, 2015
A Constituição Federal de 1988, em um de seus artigos, declara que o poder emana do povo. A autoridade exercida pelos nossos governantes e os poderes que possuem em mãos não são deles. Nós, o povo, é quem delegamos a eles parte do nosso poder para que possam administrar o país e governar para a gente, o povo.

Mas na prática, o que costumamos perceber é que o povo acaba sendo o último elemento a ser considerado quando se discute uma nova lei, planeja uma política econômica ou define a distribuição dos investimentos e verbas públicas. Em primeiro lugar vêm os padrinhos políticos, os colegas de partido, as alianças, o grande capital, o lucro e, por fim, em último lugar, o povo.

O que faz o povo ser preterido pelo dinheiro? A resposta é bem simples e direta: nossos políticos não governam para povo, eles governam para os que pagam mais. Como assim? Os políticos não são pagos pelos cofres públicos? Sim, mas para eles não parece ser o suficiente. Eles carecem de outras fontes para suprir suas “necessidades” e, com isso, se aliam aos grandes endinheirados do país.

Tudo começa pela campanha para as eleições. Já imaginou o custo para imprimir panfletos, colocar cavaletes, faixas, pintar muros, pagar as pessoas que trabalham em campanha, viagens, palcos e aparelhagem sonora pra fazer discursos, atores famosos para falar em seu favor. Ufa! Isso é extremamente caro e, o candidato não pode ou não quer assumir essa conta. Por isso, ele recorre aos grandes empresários, especuladores e latifundiários para entrar com verba de campanha. São as chamadas “doações”. Em teoria, o empresário investe por acreditar no ideal daquele candidato. Porém, na prática, ele faz um investimento que deverá trazer retorno no futuro. Isso é evidente quando observamos que várias empresas patrocinam diversos partidos diferentes. Quando você vota em um partido sabendo que ele recebe “doações” de grandes empresas, esteja certo de que dificilmente ele governará por você. O povo pode conseguir benefícios desde que estes não confrontem os interesses dos “doadores”.

As grandes empreiteiras que investem em campanhas levarão vantagens em contratos para obras públicas além de conseguir a manutenção dos salários baixos em virtude dos próprios lucros. Os grandes latifundiários conseguem sempre barrar a reforma agrária, garantir a exclusividade dos créditos agrícolas e obter as vista grossas do governo em suas atividades ilegais, como o uso de determinados agrotóxicos, o controle sobre as pessoas em sua “cidade” e o desmatamento. Os bancos conseguem manipular as taxas de juros e lucrar mesmo em períodos de crise. Em síntese, o legislativo e o executivo acabam sendo formados por representantes dos interesses privados e não dos interesses do povo.

Os financiadores de campanha são também os financiadores da corrupção. Eles são a fonte de propinas e do dinheiro que engrossa o enriquecimento ilícito da classe política. As propinas são dadas em troca de contrato fraudulentos, notas falsificadas, desvios de verbas, favorecimentos diversos. Contudo, quando falamos em corrupção, citamos apenas políticos (sobretudo de um determinado partido) e não os membros da fonte, os financiadores de campanhas.

Essa prática foi pauta da pseudo reforma política realizada este ano no Congresso. Após o projeto de lei que regulamenta a prática de doações empresarias de campanha ter sido rejeitada por quase 70 votos de diferença, o projeto foi aprovado na noite seguinte ao ser reapresentado pelo presidente da casa. O mais estranho nisso é o fato de quase 70 deputados mudarem o voto de uma noite para a outra, revertendo o resultado inicial.


Combater a corrupção é mais do que prender políticos de um único partido. A prática deve começar a ser enfrentada por nós mesmos. Temos pesquisar e obter o máximo de informações sobre aquele candidato que nos interessa. Se ele não for patrocinado por “doações” as chances de que ele governe pensando em seus interesses são maiores. O problema é que a nossa memória eleitoral é muito curta e nossa preguiça de pensar nos faz acreditar em opiniões prontas, proferidas por políticos em campanhas eleitorais.