sábado, 8 de agosto de 2015

O dia em que eu resolvi debater a Greve dos Professores

Uma greve vai ser sempre um assunto polêmico. Principalmente quando ela é cercada de elementos importantes como "a obstrução do direto de ir e vir", "a vagabundagem daqueles que deveriam estar trabalhando ao invés de fazer greve", "essa gente que se irrita com o governo e desconta na população" e episódios extremos onde ocorre quebra-quebras e/ou confronto generalizado dos reivindicantes com a polícia, força genuinamente ocupada de garantir a ordem estabelecida.

Esses pensamentos, fortemente alimentados pela mídia, sobre grevistas contribuem para manter a desunião de uma classe social e fragmentar os trabalhadores em categorias dificultando o alcance do objetivo comum de todos eles: o salário digno, o reconhecimento de sua importância e o tempo para viver para si. Esse assunto (antigo, já que a greve se encerrou há algum tempo) me veio à tona enquanto olhava fotos antigas que eu publiquei no Facebook.

Certa noite, após um dia inteiro de trabalho, fiz o que sempre faço de hábito: olhar a movimentação no Facebook. Num determinado momento, rolando meu feeds, me deparei com uma postagem da Rádio Band News FM, do dia 23 de abril de 2015, que noticiava a ação extrema de manifestantes tentando entrar a força na sede Secretaria da Educação apresentando um pequeno vídeo. Então, como de hábito, resolvi analisar os comentários.

Fiquei chocado com a quantidade de comentários denegrindo e criticando de forma firme os causadores da confusão. Até então tudo bem, é normal, as pessoas sempre reagem assim quando veem cenas de violência, depredação e confronto. Porém, tive que entrar na conversa quando as criticas passaram a ser direcionadas não ao fato ocorrido, mas à classe dos professores. Como uma classe tão importante pode ser tão mal reconhecida nesse país? É fato que a opinião pública direcionada pelas grandes mídias sobre a greve contribuem, e muito, para os pré-julgamentos.

Resolvi responder alguns comentários da postagens. Não se trata de soberba ou de arrogância, mas eu tinha que usar o meu conhecimento e minha capacidade de argumentação para defender minha classe. segue abaixo uma fotografia do comentário e minha resposta a ele:

Crítica à violência e confrontos durante uma manifestação
Podemos verificar no comentário do respeitado cidadão de bem os esteriótipos mais comuns dos antigrevistas a favor da "ordem", do "direito de ir e vir" e da "moral e da ética". Em minha resposta procurei fazer um resgaste histórico pra mostrar o quão foi importante os movimentos sociais para aquisição de direitos tomando como modelo conquistas importantes como o fim da escravidão no Brasil e a Consolidação das Leis do Trabalho.

Até então tudo bem, até que uma pessoa, que esbravejava em vários comentários da postagem e se dedicava ao máximo em procurar erros ortográficos dos professores que ali expunham suas ideias, vir me responder no comentário do dito cidadão de bem:

Comentário equivocado de quem acha que a má qualidade
do ensino público é culpa exclusivamente dos professores


Essa pessoa, também ávida defensora da moral e dos bons costumes, se mostrava extremamente alterada e esbravejava as mesmas coisas que o primeiro cidadão havia escrito, porém, de forma muito mais agressiva. A pessoa demonstrou um indício ainda maior de que ela é manipulada pela mídia ao enquadrar o professor no pacote dos "funcionários públicos" com aquela crença de que todos são preguiçosos, que nenhum presta, que eles só querem saber de sugar o "nosso suado dinheiro", querem viver ás custas da população e que, graças a eles, SOMENTE GRAÇAS A ELES, os serviços públicos são uma porcaria. Não contente, a pessoa ainda comparou os professores grevistas aos professores da rede particular onde, segundo ela, "os professores funcionam". Somado a isso, ainda culpou os professores de escolas públicas por ter que ter pago escolas particulares ao longo da vida.

Claro que ela devia pensar que eu era um dos professores grevistas, mas já não atuava na rede estadual naquele tempo. Resolvi responder o comentário usando a minha experiência de ter atuado nos dois meios, o público e o privado:

Refutação ao comentário anterior, onde demonstro os
motivos de eu ser mais produtivo em colégio particular.

Depois disso, não obtive mais respostas. Prefiro, para o meu ego, crer que ela não tinha mais argumentos, mas pode ser que simplesmente se cansou, ou ficou sem internet, ou até mesmo pode ter falta energia elétrica na casa dela. Sei lá. Pode ter acontecido qualquer coisa. O fato é que não obtive mais respostas, de ninguém. Mas lembrei dela ter mencionado como ponto negativo o fato de bandeiras de partido serem empunhadas no movimento grevista. Então aproveitei para explicar, historicamente, a falsidade do apartidarismo e o perigo do antipartidarismo.

Sobre a necessidade de nos apoiar em partidos que
defendem nossos direitos, refutando o apartidarismo.

Também não houve resposta, mas fiquei feliz por poder debater porque é isso que eu gosto de fazer. O debate é a essência da democracia. Esse meu hábito é antigo, o de olhar os comentários nas postagens para iniciar a discussão, no bom sentido, com opiniões conflitantes com a minha. Acho enriquecedor.

Pra quem interessar, a postagem original se encontra neste link: https://www.facebook.com/radiobandnewsfm/videos/vb.245513265559924/746493668795212/?type=2&theater 

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