terça-feira, 25 de agosto de 2015

A estratégia enganosa para combater a crise hídrica

Disponível em <http://www.portalmogiguacu.com.br/
materia.php?id=2358> Acesso em 25. ago. 2015
Você é daqueles que se preocupa rigorosamente em fechar a torneira da pia do banheiro enquanto escova os dentes? E quando está lavando louça, você faz o mesmo? É de habito seu tomar banhos extremamente curtos ou colocar sob seus pés algum recipiente para coletar a água em que se lavou para futuro reuso? Você se preocupa em não dar muitas descargas em seu banheiro por ser preferível aguardar que se urinem várias vezes nele a fim de economizar água? E aquele tal de "xixi no banho", você também faz? Parabéns! Provavelmente você foi condicionado com sucesso a seguir mecanicamente aquilo que aprendemos nas escolas e que vemos exaustivamente em campanhas para economia da água. E se eu afirmar que tudo que você aprendeu e faz repetidamente não chega nem perto de solucionar o problema da crise hídrica?

Em momentos de escassez (não é a primeira vez que isso no Estado de São Paulo) as campanhas publicitárias para economia de água recaem sempre nas costas da população mais humilde ou, como diz o ditado, "a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco". Parece que somos os únicos culpados pela falta da água, nossas mangueiras lavando as calçadas são o maior crime ambiental que um ser humano pode cometer. Em consequência desse tipo de vigilância passamos a ser fiscais e guardiões da água e ficamos de prontidão, dispostos a repreender e denunciar qualquer vizinho que se desvie do que foi determinado para salvar o nosso recurso tão precioso.


Disponível em <http://educador.brasilescola.com/estrategias-
ensino/a-distribuicao-agua-no-planeta.htm> Acesso em: 25. ago. 2015.
Quando começamos a analisar os dados estatísticos, começamos a perceber o tamanho de nosso equívoco ao agir da forma que as campanhas pela economia da água nos impõe. Primeiro vamos a alguns dados básicos sobre a distribuição da água no planeta. Todo mundo que prestou o mínimo de atenção nas aulas de Geografia sabe que, de toda água que temos no planeta, 97% é salgada, localizada nos mares e oceanos. Os outros 3% são de água doce, localizada nos continentes sobre diversos tipos de reservatórios. Mesmo a água doce sendo representante de ínfima fração de toda água no planeta, ela é abundante. Se pensarmos em quantidade, não precisamos nos preocupar, já que, segundo as estatísticas, temos disponível, em média, 6500 m³/pessoa/ano. Isso é bem mais do que a Organização Mundial da Saúde recomenda, que é em torno de 1500 m³/pessoa/ano. É por isso que não se deve acreditar nessas teorias catastróficas e alarmantes sobre um futuro apocalíptico provocado pelo fim da água potável em nosso planeta. O problema da escassez de água potável em várias partes do mundo, hoje, não residem na sua insuficiência e sim na sua má distribuição pelo globo.


Disponível em <http://www.mundoeducacao.com/geografia
/praticas-que-mais-consomem-agua.htm> Acesso em 25. ago. 2015
Contudo, o dado que nos interessa é mais surpreendente ainda. Quando comparamos o consumo da água por setores da economia, concluímos que não somos nós os maiores consumidores. A agropecuária é maior usuária da água potável no mundo. Ela absorve em torno de 70% da água disponível para o consumo humano. Dos 30% restantes, a atividade industrial utiliza a maior parte, 20%, sobrando apenas 10% para as residências. Logo, se pudéssemos fechar definitivamente todas as torneiras das residências, economizaríamos, no máximo, 10% da água potável disponível. Vemos então que as campanhas pressionam o setor errado para economizar. Justamente a nós, a parte mais fraca da sociedade, cabe a árdua tarefa de "salvar a água do planeta" enquanto os setores que mais consomem não recebem a mesma pressão.

Por que então não pressionar os grandes consumidores? Alguns já têm a resposta na ponta da língua: "se não gastar a água, como vão produzir os bem de consumo e os alimentos de que necessitamos?". Essa frase é um argumento muito frágil visto que existe formas inteligentes de economizar água sem afetar a produção. Várias fábricas provaram que, com ideias simples, conseguiram diminuir drasticamente seus gastos hídricos com técnicas de reuso. Na agricultura existem diversas técnicas que substituem os tradicionais irrigadores. O que falta é boa vontade dos grandes agropecuários e empresários para investir em novos sistemas que garantam uma maior economia e, ao mesmo tempo, a manutenção da produção. Outro motivo pelo qual os grandes não pressionados pelo governo é fato de eles serem os financiadores do próprio governo. Sabe-se que os grandes fazendeiros e os grandes empresários patrocinam campanhas políticas e, por isso, permanecem intocados na sociedade.

Engana-se quem acha que banhos mais curtos vai "salvar o planeta", já que, enquanto você economiza, outros gastam em quantidades muitas vezes maior que você pode poupar. Além disso, nosso país exporta cerca de 112 trilhões de litros de água por ano, que saem do Brasil para o mundo contida nos diversos gêneros agrícolas que exportamos.

Sabendo de tudo isso, devemos parar de economizar? Obviamente que não. A Declaração Universal dos Direitos da Água estipula que é responsabilidade de todos a sua preservação. Mesmo sendo um parcela ínfima, é uma parcela importante. Além disso, os desperdício é sentido no bolso, através do aumento da conta a ser paga todos os meses. O que devemos compreender é que não adianta assumirmos o posto de guardiões da água. Agindo com consciência, podemos nos organizar para cobrar quem elegemos e exigir medidas efetivas para a resolução do problema.

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